sexta-feira, 18 de setembro de 2026

rainha janaina

Janaina 

A caravela abandonava a terra de Vera Cruz
Ia em direção às praias de Luanda
De onde estava ainda via os versos que escrevi na areia
No meu peito apertado 
Eu levava a sua imagem
Minha doce Iraê
Ela toda enfeitada
Tiara de penas novas de arara 
Fios tecidos em volta dos braços e das pernas
Corpo pintado de urucum e genipapo 
Ela enfeitando um cesto de folhas verdes de palmeira 
Ela forrando tudo com folhas grandes de taioba 
Ela dizia
Essa folha não deixa o espírito da morte chegar
Ela colocava frutas doces cuidadosamente arrumadas 
Muitas flores brancas ornavam o cesto 
Pulseiras de contas 
Pente de osso
Brincos de dentes de onça 
Um belo cocar branco e azul dava um ar de realeza ao presente
Assim ela entrava no mar
Assim ela entregava o presente a Mãe Sereia
Assim eu jurei perante o mar da sereia 
Um dia voltar para Iraê
Eu já não via a praia 
Mas as minhas palavras não seriam em vão 
Tupã terynhyrõ, Janaina

Marcelo Galvão

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