sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Nascimento de osagion

O NASCIMENTO DE OXAGUIÃ

Nasceu dentro de uma concha de caramujo. Não tinha mãe. E quando nasceu, não tinha cabeça, por isso perambulava pelo mundo, sem sentido e sem rumo.

Um dia encontrou Ori numa estrada e este lhe deu uma cabeça feita de inhame pilado. Apesar de feliz com sua nova cabeça branca, ela esquentava muito, e quando esquentava Oxaguiã criava mais conflitos. E sofria muito.

Um dia encontrou a morte (iku), que lhe ofereceu uma cabeça fria. o calor era insuportável, e ele acabou aceitando a cabeça preta que a morte lhe deu. Mas essa cabeça era dolorida e fria demais. Oxaguiã ficou triste, porque a morte com sua frieza estava o tempo todo com o orixá.

Então Ogum apareceu e deu sua espada para Oxaguiã, que espantou Iku. Ogum também tentou arrancar a cabeça preta de cima da cabeça branca, mas tanto apertou que as duas se fundiram e Oxaguiã ficou com a cabeça azul, agora equilibrada e sem problemas.

A partir deste dia ele e Ogum andam juntos transformando o mundo. Oxaguiã depositando o conflito de idéias e valores que mudam o mundo e Ogum fornecendo os meios para a transformação, seja a tecnologia ou a guerra.
OXAGUIÃ O SENHOR DA GUERRA E DA PAZ
ÓTIMA SEXTA-FEIRA
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quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Osetura

OXETURA

REZA DE OXETURA
Oxetura lodafun Unbatinló leajá benifó tete no nixó inbá oiyni afere wewé. Aiyagbá
didé afere wewé. Oxetura omi unsoro atie Axá Olodumare ebó omó Ire Odara.
Este Odu surgiu do encontro de Oxe com Otura.
Em seu nascimento cercado de mistérios, Oxetura restaurou a harmonia que havia
sido rompida entre os dezesseis Agaba Odu e o poder gerador feminino representado por Oxun
Iyagbá, salvando o mundo da destruição e do retorno ao caos.
Oxetura foi gerado no ventre de Oxun Iyami Ajé, matriarca das mães ancestrais que
possui o poder mágico inerente ao Axé do elemento feminino, representado pelas penas do
ekodidé.
Este Odu é o resultado da interação deste poder com o poder genitor masculino, do
qual Obatalá é o detentor, aqui representado pelo Axé contido nos dezesseis Agba Odu.
É o caminho único utilizado por Exú em sua função de Elejigbo, o transportador de
sacrifícios.
É um Odu, como os outros 256 do elenco de Ifá, e não um Exú, como afirmam
pessoas que nada sabem dos mistérios de Ifá.
É o caminho dos ebós de todos os outros signos, e por este motivo é chamado
também de "Ebó Adá" - o que garante a eficácia do ebó.
Oxetura, assim como Exú, é a boca que fala tanto o bem como o mal. Aceita todas as
cores e todas as ervas lhe pertencem.
A palavra de Oxetura sempre se cumpre.
É um Odu de muita riqueza material e espiritual.
Por ele falam Exú, Iroko, Oduduwa, Obatalá, Oxun, Nanan, Xangô, Ibeji e Omolú.
As Pessoas deste Odu são colocadas em perigo de vida pela própria mãe ou esposa.
Este Odu é o representante de Exú na terra e é o caminho que o conduz aos pés de
Olodumare.
Representa e expressa uma das mais importantes de Exú Elegbara, dono e
controlador das oferendas ritualísticas.
Assinala enfermidades na boca e na garganta, aftas, faringites, laringites, etc.
A pessoa é achacada de roubos, não deve ter contato com ladrões e lava a culpa de
coisas que não fez.
Quando traz osogbo a pessoa deve viajar par desviar a atenção dos seus inimigos.
É orgulhosa e por este motivo todo o mundo está em guerra com ela.
Aqui nasceu Adamú filho de Oduduwa e pai de Inle. Seu culto é feito com máscaras e
trajes apropriados.
Proíbe aos seus filhos comerem galo, milho e todas as comidas de Omolú.
Na guerra Oxetura oriente aos dois contendores para que se defendam um do outro.
Aqui nasceu a guerra entre a vida e a morte.
Aqui criou-se a arte de matar em legítima defesa.
O mundo se divide em dois aspectos: Vida e morte.
Aqui tentaram matar Olofin e, para defendê-lo Orunmilá fez um ebó com um boneco,
uma agulha, pó de efun, pó de carvão, um galo, um bode, obí, orogbo, pó de peixe, pó de ekú,
etc...
Aqui Obatalá cria os seres e Oduduwa coloca-lhes espírito.
É neste caminho que baixa o espírito ao espermatozóide humano.
A pessoa está sendo combatida sem saber e pode ser vítima de um roubo.
Para melhorar a sorte tem que oferecer um galo ou uma galinha ao espírito do poço.
Tem que mandar rezar missa aos familiares falecidos.
Não deve construir castelos no ar, alimentar ilusões vãs, para não sofrer desilusões.
Sua prosperidade só ocorrerá depois que sua mãe fizer santo ou cumprir suas
obrigações para com eles.

Ika meji

Ìká mèjì

Quando Ọmọlu (Espírito das doenças infecciosas) atingiu a idade de Akoko ti òkúnrin (puberdade) foi levado para a selva para Ilana òkúnrin Isin (Ritual de transição).
Neste dia, os anciãos resolveram levar o ọbẹ (faca).
Quando chegou a hora de fazer as marcas tribais em Ọmọlu, o mais velho usou uma faca sem corte.
Ọmọlu ficou com cicatrizes grandes e feias no rosto.
Em sua ira Ọmọlu fez oferendas aos Orisá que se apiedaram dele.
Eles lhe deram o Apo onísègùn (cabaça de medicina).
Toda vez que ele balançava sua cabaça, a varíola invadia a aldeia e os que estavam perto dele também sofriam com as cicatrizes.

Comentário:
Ifá ensina que a negatividade do mundo é criada por aqueles seres humanos que deixam de aspirar ao desenvolvimento e o bom caráter.
Dentro de Ifá não há nenhuma força que possa ser considerada intrinsecamente má.
O resultado do desenvolvimento do mau caráter pode ser um distúrbio no equilíbrio e harmonia naturais. Este distúrbio pode tomar dimensões tão grandes que pode parecer um espírito demoníaco se originando.
Nesta história, a varíola é atribuída às ações de Ọmọlu em função da irresponsabilidade dos idosos.
A implicação aqui é que as doenças infecciosas foram desenvolvidas como resultado da indiferença aos princípios fundamentais de respeito humano e à higiene. Tradicionalmente, as cicatrizes tribais são feitas com cuidado e consideração. É impensável se usar uma faca cega. Quando o impensável aconteceu, desenvolveu conseqüências negativas.
Para usar a mesma analogia, se a água está contaminada com resíduos químicos de forma consistente, eventualmente tornar-se intragável.

Òrìsá diz que todas as coisas que esta pessoa tem,
Eles vão dividir ao meio,
Se eles não quiseram perder tudo.
Òrìsá diz que todas as coisas que ele tem em sua casa devem ser divididas em dois para o sacrifício,
Como Òrìsá disse.
Òrìsá diz que é por causa da sua vida que esta pessoa jogou os cauwris.
Òrìsá diz que ele deve ir e oferecer uma cabra.
Você não vê o caminho que Òrìsá diz que isto acontece?
A praia inclina-se para dentro do mar, o mar seca1.
Foi quem jogou para o Dono da Água Quente e compartilhou com Dono da Água Fria.
Eles disseram:
O que podemos fazer para que nossas vidas possam ser prazerosas?
Eles disseram que eles deveria fazer um sacrifício.
Quando Òşún ofereceu seu sacrifício, ela ofereceu água fria;
Quando Sòponnà ofereceu seu sacrifício, ele ofereceu água quente.
Quando ele pegou o filho de alguém, ele o imergiu em água quente,
E eles disseram:
Que há de errado?
Eles disseram:
Nosso filho tem febre.
E eles dizem:
Venha aqui e ali atrás e peça ajuda.
Quando eles deram a ela óleo de palmeira,
Quando eles deram a ela todas as coisas.
Òşún vai pegar a criança e imergi-la em água fria;
E eles dirão:
Há! Olorun fez isto.
Quando eles foram para Òşún, a criança ficou fria.
Eis como eles começaram estas duas divindades.
Eles dançavam, eles se alegraram
Eles louvavam os divinadores,
E os divinadores louvavam Òrìsá
Que os divinadores falaram a verdade.
A praia inclina-se para dentro do mar, o mar seca.
Jogou para Dono da Água quente e compartilhou com Dono da Água Fria.
Eles dois estavam vindo do Céu para a Terra.
Eles disseram:
Nós ouvimos e oferecemos o sacrifício;
Nós aplacamos os deuses;
Não falta muito, não está muito longe,
Você me verá em abundância de bênçãos.
_________________
1. Isto é uma charada cuja resposta é farinha de inhame (èlùbó) que é derramada em água quente enquanto a água é absorvida.

Oturuupon meji

Òtúúrúpòn mèjì

Osonyin (Espírito das folhas) desafiou Ọrùnmìlá (espírito do destino) para uma competição no dia que as pessoas perguntavam quem era o mais forte, Ewe (ervas) ou ebo (oferendas ao espírito).
Ọsànyín disse: "Deixemos ambos enterrados no subsolo por ano para ver quem sobrevive." Ọrùnmìlá concordou.
Osanyin reuniu todo o seu Oogùn (Medicina) e Ewé (ervas) e adentrou ao buraco profundo que foi coberto com terra.
Òrúnmìlá consultou Ifá e foi aconselhado a levar um caranguejo e um rato como uma oferenda a seus instrumentos de adivinhação.
Òrúnmìlá No primeiro dia Orunmilá ofereceu o rato e caranguejo como tinha sido avisado. O caranguejo cavou em direção a terra até alcançar a água. O rato dirigiu-se à superfície e voltava todos os dias com alimentos. Ọrùnmìlá bebeu água e comeu comida todos os dias durante o ano.
Quando Òrúnmìlá emergiu do buraco, e cavaram o lugar onde Osanyin havia sido enterrado somente encontraram o que restava de seus ossos.

Comentário: Esta é uma das várias histórias sobre a rivalidade entre Ọrùnmìlá e Ọsànyín. A ponto de cada uma dessas histórias é que fazer oferendas aos espíritos é muito mais poderoso que depender exclusivamente da medicina.
Ifá ensina que todas as doenças têm causas espirituais e a única maneira de curar uma doença é eliminar a fonte. O uso da fitoterapia é um dos aspectos principais da disciplina de Ifa, mas também é considerada uma disciplina que apóia a questão mais ampla do alinhamento significativo com o òrìsá e para o desenvolvimento de bom caráter.

Oyèépolú, descendência daqueles que fazem os ritos tradicionais na Cidade de Ifè
Pepe, sacerdote de Ifá do interior da casa;
Òtìtà, sacerdote do exterior da casa;
É o pardal que constrói seu próprio ninho
E coloca sua entrada virada para baixo em curva;
O ninho nem toca a água nem arrasta na terra seca;
Mas, sua entrada aponta para baixo em curva.
Foi quem divinou Ifá para Oyèépolá,
Descendência daqueles que fazem os ritos tradicionais de Ifè;
Cuja mãe deixou todos sozinhos,
Quando ela era muito jovem.
Quando Oyèépolú cresceu,
Ele não sabia todos os ritos de sua família.
Sua vida tornou-se confusa.
Ele procurou uma esposa para casar-se, mas não achou nenhuma.
E ele não tinha paz na sua própria casa.
Ele, portanto, juntou dois cawris com mais três.
E foi a um divinador fazer divinação.
Foi lhe dito que era por causa dos ritos tradicionais da sua família
Que ele havia esquecido,
Que ele estava naquela confusão.
Foi dito a ele para ir as sepulturas dos seus pais,
E pedir aos seus ancestrais poder e autoridade.
Depois que agiu assim,
Ele começou a gozar sua própria vida.
Ele teve dinheiro,
Ele desposou uma mulher,
E ele também teve filhos.
Ele disse que foi exatamente como seus sacerdotes de Ifá previram.
Pepe, sacerdote de Ifá de dentro da casa,
Òtità, sacerdote de Ifá de fora da casa.
É o pardal que faz seu próprio ninho,
E coloca sua entrada voltada para baixo numa curva;
E ninho nem toca a água nem se arrasta na terra seca;
Mas, sua entrada aponta para baixo numa curva.
Foi quem lançou Ifá para Oyèépolú,
Descendência daqueles que fazem os ritos tradicionais em Ifè;
Oyèépolú não sabia nada.
Se o óleo é a primeira coisa a ser colocada no chão,
Eu não sei,
Se o obí é a primeira coisa a ser colocada no chão,
Eu não sei.
Se o vinho é a primeira coisa a ser colocada no chão,
Eu não sei.
Oyèépolú nada sabia.
Todas as divindades e ancestrais do céu,
Apressem-se aqui,
E nos ajudem a fazer este ritual.

Osebara

OXEBARA
REZA DE OXEBARA
Oxebara Awo Shexeré adifafun Lobá Fiferekú tolumá ku oguede Alafia.
Este Odu é filho de Oxe e Obara.
Quando Ikú desejava levar a bananeira que já havia dado frutos, foi este signo que
Awo Shexeré encontrou numa consulta feita para a planta. Xangô que era o rei daquela terra, e
que havia saído em busca de coisas boas, ordenou que a bananeira fizesse ebó com dois
pombos e um xeré adornado de búzios para que se livrasse da morte.
Neste signo o xeré de Xangô é carregado com bico e unhas de galo, 16 favas de
bejerekun, 16 sementes de urtiga e muito pó de osun.
Quando o Awo deseja vencer seus adversários e evitar o mal que estes lhe fazem,
deve colocar Elegbara sobre iyefá com a marca de Oxebara, sacrificar-lhe um galo (chamando o
galo pelo nome do arajé) e rezar este Odu.
A pessoa pede alguma coisa e se assusta quando a obtêm.
Aqui nasce o transtorno da personalidade. A pessoa deseja ser Babalawo e muda de
religião, mas seu verdadeiro caminho está no culto aos Orixás.
Tem que levar Oxun ao rio e, se tem Awofakan ou Akofá, deve levar seu Igbá
Orunmilá junto e ali, dar comida a eles para livrar-se de todo o mal e ter sorte na vida.
Fala de um Egun que morreu de fome e que fica parado na porta da casa da pessoa
esperando que lhe dêem comida.
Tem que oferecer um peixe fresco enrolado num pano estampado para este Egun.
Tem que fazer ebó com uma franga e nove fitas de diferentes cores, depois do ebó
tudo deve ser enterrado.
Este Odu fala de um cofre cheio de moedas.
A pessoa tem que ir à uma igreja levando uma lagartixa enrolada num algodão,
assistir à missa e depois, sair, passar o algodão com a lagartixa no corpo e despachar na
sepultura de um padre, pedindo tudo o que deseja obter na vida.
Marca-se Oxebara na terra e sacrifica-se, em cima, um galo branco para Ogun
Este Odu manda dar comida a Egun, periodicamente, na porta de casa.
Assinala doenças como: Úlceras estomacais, problemas da vesícula, úlceras de
duodeno, doenças cardíacas e das veias.
O dono deste signo é espírita e adivinho. Tem que fazer Ifá.
Tem proteção espiritual muito poderosa e repleta de luz.
Atrás de sua porta tem um Egun de guarda que jamais entra em casa, deve colocar
uma quartinha, atrás da porta, com água e pedacinhos de coco, despachar para a rua e
substituir a cada nove dias.
Tem que assentar Osain.
A língua é o chicote do corpo.
Quando seus filhos crescem, vão embora de sua companhia.

Irosoyeku

IROSOYEKÚ
REZA DE IROSOYEKÚ
Irosoyekú, Irosokalelu, ko ni awo efá abé lalá belé lelé maká dakpare ré Ifá
Onibarabaniregun, awo Obayá pelé Ikú.
Neste signo nasceu mudança de vida.
Este Odu é filho de Irosun e Oyeku.
Aqui, pela primeira vez, se sacrificou um animal a Ikú que, até então, só comia seres
humanos.
A pessoa deve evitar emoções fortes para não sofrer parada cardíaca.
Tem que dar comida ao seu Olori, tomar borí com um galo e colocar um ekodidé na
cabeça.
Não deve sair para a rua durante a noite.
É protegida por Osain e Exú.
Sofre de problemas ocasionados por ciúmes entre os parentes de Santo.
Corre o risco de perder uma propriedade.
Assinala úlceras no estômago e falsa gravidez.
A pessoa não pode ter, em sua casa, potes e garrafas vazias destampadas
Antes de abrir a porta de sua casa tem que ter o cuidado de verificar quem está
batendo.
O Awo deste signo tem que assentar Oduduwa.
Quando surge este signo, pode estar acusando a morte de um Babalawo.
Se marcar osogbo Ikú a pessoa deve procurar uma foto sua, tirada na companhia de
alguém que já morreu. Separa a sua figura da figura do morto para que, aquele Egun, não venha
buscá-lo.
Em osogbo arun pega-se um porrão grande de barro, veste-se com uma roupa usada
do doente e coloca-se atrás de sua porta até que fique bom. Isto serve para enganar Ikú.
Assinala mudança de vida. Faz-se ebó para que seja para melhor.
A pessoa não pode usar roupas vermelhas.
Tem que tratar de Exú e pedir-lhe tudo o que deseja obter na vida.
Assinala dificuldades que só serão vencidas com empenho e dedicação.
Fala de perseguição do Egun de uma pessoa conhecida.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Criação do mundo na visão yoruba

O CONCEITO DA CRIAÇÃO SEGUNDO A TRADIÇÃO IORUBA.
O conceito de Ifá acerca da criação
Cosmologia é o estudo da estrutura do universo que procura descobrir os princípios da essência que sustenta a Criação. A Cosmologia de Ifá é baseada na crença de que o microcosmo (ambiente imediato) é uma reflexão do macrocosmo (o universo). Isto significa que as forças que criaram as estrelas e as galáxias também criaram a Terra, incluindo as plantas e os animais que se desenvolveram no planeta. Devido a esta seqüência, Ifá ensina que todo problema enfrentado pelos humanos tem uma contraparte análoga em todas as esferas de existência. As escrituras de Ifá descrevem freqüentemente os problemas encontrados por animais e plantas com a suposição básica que a condição humana encontra as mesmas lutas para sobreviver.
Uma das funções da divinação é identificar os meios pelos quais as forças universais se manifestam na vida quotidiana. Isto é feito através do uso do mito. Devido o mito fazer uso de elementos metafóricos, um conhecimento de símbolos torna possível ao divinador relacionar determinado mito a uma dada situação. O paradigma cosmológico fundamental que Ifá utiliza para interpretar símbolos é a crença que a manifestação do Universo é o resultado do equilíbrio entre polaridades.
A maioria dos sistemas metafísicos são baseados na crença que a polaridade primordial que sustenta o universo físico é a tensão entre contração e expansão. Em Ifá, essa polaridade é freqüentemente descrita como a relação entre escuridão e luz. Este relacionamento não é considerado como um conflito entre as de forças do “bem” e as forças do “mal”. A polaridade entre expansão e contração é entendida como sendo a qualidade fundamental da dinâmica e forma como eles existem na Natureza.
Usando o sistema divinatório de Dafa, expansão ou luz é representada por um traço vertical (I) e contração ou escuridão é representada por dois traços verticais (II). Utilizando o sistema divinatório que faz uso de búzios, luz é representada pelo lado côncavo aberto da concha e escuridão pelo lado convexo da mesma. A curva do lado convexo forma uma barriga. Na pratica, essa barriga é removida, expondo uma coluna única abaixo do centro. Este lado do búzio é chamado de “estomago” ou “inú” em yoruba. O lado côncavo possui dois lábios que se curvam para dentro com uma abertura no meio. Este lado da concha é chamado de “boca” ou “enu” em yoruba.
A cosmologia de Ifá ensina o princípio que luz vem da escuridão e escuridão vem da luz. Ela também ensina que todas as coisas existentes são uma manifestação do ase. A palavra yoruba ase possui vários significados. Em um contexto cosmológico, é a Força que sustenta a Criação. A manifestação primordial do ase seria a Força invisível que cria tanto luz quanto escuridão. A Física chama esta força de eletromagnetismo. Todas as coisas no universo material geram campos de força eletromagnéticos. As forças eletromagnéticas que se expandem além de suas fontes geram um campo de radiação que abrangem o espectro visível da luz. As forças eletromagnéticas que se contraem pelo movimento em direção a sua fonte desenham luz fora do espectro visível dentro da escuridão. Na Natureza, um padrão energético (ase) forma uma esfera. Toda a coisa desde o menor átomo até a maior das estrelas contém forças de expansão e contração em uma arena esférica.
O formato esférico da maioria dos padrões energéticos é representado na divinação em Ifá pelo uso de um círculo bidimensional em forma de tabuleiro (Opón Ifá). O Mérìndinlogun geralmente representa a esfera numa peneira (Àté Òrìsà). Toda esfera é definida pela distância entre seus pólos e seu equador. Os pólos e o equador são determinados pela colocação de uma linha horizontal e outra vertical em seus ângulos retos passando pelo centro da esfera. Estas linhas em Dafa são traçadas no pó de iyerosun que é espalhado na superfície do tabuleiro. Estas linhas no Mérìndinlogun são traçadas no pó de efun que é espalhado sobre a peneira. Isto resulta em uma imagem que é uma representação bidimensional de uma realidade tridimensional:
Usando Dafa, o padrão simbólico para luz pura seria uma linha simples em cada um dos dois pólos e em cada extremo do equador como na figura:
Quando estas quatro linhas são postas juntas, formando uma única coluna, elas se tornam uma notação linear que é utilizada para representar uma realidade tridimensional específica. O símbolo para luz é como segue:
I
I
I
I
Pelo mesmo processo, a representação simbólica para a esfera de escuridão seria uma coluna com quatro linhas duplas:
II
II
II
II
Em adição aos pólos e ao equador, toda esfera possui um centro chamado núcleo, que forma um coração oculto dentro dos limites de outra camada exterior. O núcleo de uma esfera também forma uma esfera no ponto onde as linhas dos pólos e equador se cruza.
Dafa utiliza duas linhas verticais para representar o limite externo e o núcleo interno dos padrões de energia que existem na Natureza. Usando exemplos já dados, uma esfera de luz com luz em seu núcleo seria representado por duas colunas de linhas simples. Na divinação em Ifá este símbolo é chamado “Ejí Ogbe” ou “Ogbe Meji”. Ele aparece da seguinte maneira:
I I
I I
I I
I I
Os padrões são lidos da direita para a esquerda. O lado direito é o exterior visível e o lado esquerdo é o interior invisível. Em termos metafóricos o lado direito é masculino e o lado esquerdo é feminino. Em Ifá, a associação entre expansão, luz e energia masculina e a associação entre contração, escuridão e energia feminina é relatado na natureza expansiva e contrativa dos órgãos reprodutores masculinos e femininos. Um não é considerado melhor que o outro. A polaridade entre expansão e contração, entre claro e escuro e entre macho e fêmea são todos vistos como os princípios dinâmicos que geram diversidade no interior da Criação.
Para representar uma esfera que é escura na circunferência e clara em seu núcleo, Dafa utiliza duas colunas de linhas duplas. Na divinação em Ifá este símbolo é chamado “Oyeku Meji”.

II II
II II
II II
II II
Utilizando estes dois exemplos, é possível fazer uma representação simbólica da Terra. A bola de fogo no centro da Terra seria representada por uma coluna de linhas simples situadas ao lado esquerdo do octograma. A superfície da Terra seria descrita como luz que foi transformada em matéria e seria representada por uma coluna de linhas duplas. Em Dafa apareceria da seguinte maneira:
I II
I II
I II
I II
Novamente, usando as mesmas técnicas, nós poderíamos fazer uma imagem simbólica do Sol pela representação da luz que emana de sua superfície como uma coluna de linhas simples ao lado direito do octagrama. O combustível no centro do Sol contrai luz, formando uma massa de partículas que seria representada por uma coluna de linhas duplas ao lado esquerdo do octograma. Em Dafa apareceria da seguinte maneira:
II I
II I
II I
II I
Dentro da religião de Ifá, é creditado ao Profeta Òrúnmilà o uso deste sistema para simbolizar o espectro de polaridades que existe na Natureza. Em dias anteriores à colonização a marcação do Odu foi usada como uma forma de linguagem escrita. Foi e é possível transmitir uma série complexa de idéia pela marcação do Odu com giz ou carvão em um pedaço de cerâmica. Mensagens foram trocadas entre sacerdotes utilizando variações neste método da mesma maneira que alguém escreveria uma carta nos tempos modernos. Em yoruba esta forma de comunicação é chamada “àrókò”.
O simbolismo em Dafa é baseado no uso de elementos binários. Isto significa que ele é construído sobre dois componentes. Os elementos binários são uma linha simples e uma linha dupla. Estes componentes são agrupados em duas colunas reunindo quatro elementos cada. Esta é a mesma estrutura matemática que é utilizada para programar os computadores modernos. A maior diferença é que uma é formada por linhas simples e duplas e os computadores utilizam impulsos 0/1 elétricos para formar elementos binários. Ambos os sistemas fazem uso de octagramas como uma estrutura para armazenamento de informações. Nesta estrutura, cada quadragrama possui dezesseis variações (4 x 4). Pela combinação de dois quadragramas formamos um octagrama, há 256 combinações (16 x 16). Na cultura Yoruba, Dafa é usado como um meio não mecânico de armazenamento de informação. Como um novo discernimento foi acrescentado em uma esfera particular da Natureza, esta informação foi reunida e adicionada aos versos de um octagrama particular associado a uma esfera em particular da Natureza, exatamente como informação e unida e armazenada sob tópicos específicos em um moderno computador.
Ifá chama de Odu “cada um dos 256 octagramas usados em Dafa”. O uso do Odu como um paradigma para estudo e catalogação de Forças na Natureza é uma tentativa precoce em formular um modelo científico que explique dinâmica e forma no universo. O que na superfície pode parecer um conjunto relativamente simples de símbolos é de fato um mapa muito complexo da estrutura da realidade como percebida pelos ancestrais que formularam os conceitos associados a cada Odu. De acordo com a cosmologia em Ifá, a fonte da Criação é Olorun. A palavra Olorun traduz-se como “Senhor do Paraíso”. Senhor é usado aqui no sentido metafísico de possuindo um segredo ou sendo a Fonte de um Mistério. Na cosmologia em Ifá, Céu é o reino invisível que guia a evolução. Olorun é o Mistério da Fonte que é considerado estar por trás da compreensão humana. Quando Ifá descreve Forças na Natureza, se refere àquelas manifestações invisíveis da Criação que se acredita fluir de Olorun. Todos os espíritos que são reconhecidos por Ifá são considerados como aspectos conhecidos de Olorun, enquanto a essência de Olorun permanece um Mistério.
Quando o universo passou a existir no momento da Criação, foi Olodunmare quem deu a tarefa de sustentação para tudo aquilo. Olodunmare vem da raiz Olo Odu, significando “Senhor do Odu” ou “Senhor dos Primeiros Princípios”. Mare é a contração de Osumare que é o espírito do Arco-íris. Na Natureza, o Arco-íris é uma das mais puras manifestações da luz. Olodunmare poderia ser traduzido como “A Fonte das Forças na Natureza geradoras do espectro da luz”. Como Senhor do Odu, Olodunmare pode ser descrito como Caldeirão Místico que contém todas as formas potenciais que se manifestam a partir da Criação.
Como Força Espiritual, Olodunmare existe em polaridade com o espírito Ela. Não há uma tradução direta para a palavra Ela. Alguns dos mais velhos em Ifá dizem significar “Pureza”. Outros dizem significar “Aquele que cria”. Quando estas formas que existem em potencial no útero de Olodunmare se manifestam, é Ela que sustenta esta manifestação. Em termos simbólicos, Ela trás a luz da Criação para fora da escuridão do Útero da Criação.
A tarefa de moldar a Criação foi conferida originalmente a Obatala. A palavra Obatala significa: “Senhor das Vestes Brancas”. O termo “Vestes Brancas” é referencia a substância primordial que forma o alicerce do universo físico. A Física ensina que a primeira manifestação de dinâmica no universo foi luz. No ponto de vista Ocidental, Obatala pode ser compreendido como a essência da luz. A ciência moderna ensina que a evolução é um processo de transformação da luz solar em meio planetário. Evolução é a reorganização da luz solar para as multidimensões da vida na Terra.
O mito de Ifá diz que a tarefa de moldar a Criação foi dada a Oduduwa por Olodunmare após Obatala se embriagar. A polaridade entre Oduduwa e Obatala é a expressão simbólica da teoria Ocidental cientifica que luz forma matéria e que matéria dissipa-se na luz. Ifá expressa o mesmo conceito pela afirmação que luz provem da escuridão e que escuridão provem da luz. A referência à bebedeira de Obatala é uma expressão simbólica da observação de que o movimento da luz para escuridão e vice-versa nem sempre tem lugar em uma progressão uniforme.
As imagens utilizadas para representar os Odu podem ser consideradas cópias dos modos pelos quais a transmissão entre luz e sombra ou expansão e contração têm lugar. A essência dos Odu é a expressão de uma idéia científica que matéria nunca se cria nunca é destruída, é simplesmente transformada.
De maneira a compreender a natureza do Odu em sua manifestação primordial, é de grande auxílio representar a Criação como é simbolizada, tanto no tabuleiro de Ifá quanto no Mérìndinlogun:
Desta representação simbólica da Criação é possível iniciar o processo de visualização dos relacionamentos primordiais representados pelos Odu. Olodunmare é a Fonte de movimento e forma, o universo oculto em potencial. Ela é a manifestação de movimento e forma como ele existe no momento presente. Obatala é a fonte de luz e Oduduwa é luz transformada em matéria. A Fonte de Equilíbrio no universo é Olorun, o núcleo invisível do qual a Criação emerge. Neste paradigma, equilíbrio é o elemento chave. Forças opositoras que coexistem em um estado de equilíbrio geram o ase (poder) necessário para dar nascimento ao próximo estágio da evolução
Às forças espirituais que passam a existir como resultado das polaridades entre Olodunmare e Ela é chamado Imole. Os Imole são aquelas Forças invisíveis que guiam a interação entre luz e matéria. Através dos Imole, os Odu que existem no útero de Olodumare manifestam-se como Força primordial na Natureza